pontoquepariu!


No momento em que um grande amigo recebe a notícia que a mãe está morta e não houve  tempo de chegar até ela, o que dizer ?! Despeço-me  duas vezes , abraço-o forte, quase constrangida, não tenho o que dar de consolo,  sei que não acredita em meu consolo, mas anseia, com os olhos entre lágrimas não derramadas beija novamente meu rosto e diz que as malas já estão prontas para vê-la, mas que agora não adianta mais. Resta meu olhar, quase de pena, disfarçado de sorriso desesperado para que não que sofra, não pode sofrer, não devia. Não posso mandá-lo com deus... Hipocrisia de ambas as partes, mando-o com vontade de ir junto, para ampará-lo, senti-lo. Merda de vida que acaba.



Escrito por Zedka às 01h39
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Junho. Um dia nublado.

Já faz três dias que tenho a mesma visão, às 15, vou até a janela e espero. Dez minutos no máximo. A casa em frente a minha foi vendida, de mudança vieram dois jovens, um menino e uma menina. Ele, esguio, a pele amarelada, sempre de bermuda e sem camisa, às vezes torço para nevar, só para ver se ele vai continuar com essa repulsa a roupas, deve ter 25, mas pela falta da camisa, sempre imagino 19, um garoto. E Ela. Sai de casa às 15:05, é raro o atraso, sempre de vestido comprido, mas desce tão rápido a escadaria até o portão que deixa a mostra as coxas, encantadoramente pálidas. O cabelo é alaranjado sempre preso, uma parte sobre o rosto. desleixada. Os pés delicado em sandálias baixas.

Se demora na rua até às 16 e volta, quase saltitando, põe a bolsa entre as pernas e abre o portão, sobe as escadas com a mesma pressa anterior e não a vejo mais, só fica a lembrança de seus tornozelos. deve ter por volta de 20 anos e sempre me recuso a acreditar que seja casada com o descamisado, devem ser irmãos bem distintos, ou amigos que dividem uma casa. Mas ela não se casaria com aquilo. Não Ela.

Hoje foi um dia especial , seu vestido era cuidadosamente amarado na cintura, marcando seu corpo como é raro acontecer, não usava sutiã e seus seios balançavam a cada degrau, voltando ao lugar ao fim da descida. Suspirei, queria tê-los em meus lábios, acariciá-los, lambe-los, tão pequenos. Imagino. Não sei por que me cativou dessa forma, uma menina, mas espero todo dia sua rotina e depois deito. Imaginando-a a meu lado, podendo correr cada dedo pelas suas coxas, ficaria imóvel, nua, enquanto eu daria o prazer que ela nunca tivera. Seu ventre pálido, seus pés. Minha garota.

Desperto. Faço planos para o dia seguinte, às 15 vou caminhar em frente a sua casa, posso esbarrar quando estiver de saída e sentir sua pele, sua voz. Planejo. Às 15 esrtou em minha janela. Covarde. Acendo um cigarro e o deixo queimar. 5 minutos. Ela sai, como em todos os outros dias, ela sai, sinto minha lingua tremer, ela vira e olha para mim. Sorri. Aceno. Com o mesmo sorriso vai embora, levando consigo minha máscara, minha paixão.



Escrito por Zedka D. Russo às 01h19
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“e ao que não dais tento, meninas sem tino. Pois não tendes tino, brotos malfadados que aí pelos prados há um assassino, que a vossa passagem põe olhos malvados por entre as folhagens: cuidado meninas!”

 

 

Aconteceu (de novo),

outra menina se forçou a crescer,

alongou os cabelos e fingiu que bastava,

cortou o salto, cortou o álcool

e sentiu saudade do tempo que lhe restava,

naquele passado...

 

Passado vivido, futuro pensado,

as tantas viagens,

a mochila,

os cigarros,

pés esmagados nos saltos tão finos,

flutuam ainda na sua cabeça.

 

Não dá importância as coisas da vida,

relembra (de novo) a paixão perdida,

o frio no estômago nos bares de outrora,

os gostos, as bocas, era urgente:

agora!

 

Nos planos de hoje,

uma casa, um futon...

Viagens desfeitas, paragens perfeitas

e a brisa batendo nos olhos,

batendo,

batendo...



Escrito por Zedka às 01h08
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laura.

Laura nasceu num dia de muita chuva e poucas notícias. Por estas, uma espera angustiada e difusa se desenrolava sobre as horas. Ainda não se sabia de que lado da meia noite ela resolvera surgir e ver a luz do mundo frio pela primeira vez. Deixava o seu canto morno para conhecer outro, nos braços de sua mãe, de seus tios, de sua avó.
A chuva não parou.Veio de modo que insistia em preencher um espaço e não permitir que a ansiedade se tranformasse em qualquer outro sentimendo mais pesado. Pesava sobre o dia e levava consigo, em córregos densos, até mesmo os indícios invisíveis de coisas indesejáveis.
Laura nasceu. Não num dia de sol. Isto vinha carregado de significados indecifráveis, pois seu tio se sentia tão feliz em dias assim. A menina branquinha, de quem o tio e sua irmã ainda não conheciam o rosto, os fez respirar aliviados. Respiravam leves, com suas vias permissivas à passagem de um ar limpo e fresco, rico em oxigênio. Era uma vida, tudo isso.
A mãe de Laura já a segura em seus braços. E percebe que tudo é igualzinho àquele sonho que teve, semanas antes. O mesmo toque. A mesma pele lisinha transpirando ternura por pequenos póros. Novíssimos. Limpos.
Foram muitas horas. A melhor de todas é agora. E este agora pretende se repetir incansavelmente. Eternamente.




Escrito por Bento Rodrigues às 17h17
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silly.

Cheio de mágoa e cólera.
Discretamente.
É desse jeito que esconde uma ligeira vontade de mandá-los às favas.
"Faça-me um favor! Não precisa disfarçar..."
Já nem sabe como escrever, mas sabe que precisa.
Dizer coisas é como lançar-se no vácuo imenso.
Um universo inútil. Filhos da puta, é o que são.
Todos aqueles que um dia visitaram, desperiram-se, desculparam-se, na verdade, não sentiam culpa alguma.
Quanto alívio!
Ele já não está no meio de nós.
O peso da sua presença e o ar turvo se dissiparam.
Quanta falta de graça, amigo. Pra que tanto esforço?
Economize suas poucas energias para seguir em frente, numa direção oposta.
À nossa vontade, poderia ficar. (Cruza os dedos enquanto fala)
-Obrigado!(agradece inocentemente, o menino...)
Coitato.
Era de fato muito frágil. Dizia sempre à sua sombra tênue.
Não tinha madeixas longas, despojadas.
Não possuía instrumentos atrativos, sonoros, imponentes.
Mostrava para muitos inexpressividade.
_ Encontraremo-nos em breve, quando tudo e todos conspirarem para que nossos destinos se cruzem
bruscamente, sem que planejemos... (só assim poderia aceitar sua presença)
_ Não deseja mesmo nos esquecer? - Dizia isso de forma secreta enquando forjava odes à amizade diluída em lembranças falsas.
O outro não ouvia essa parte da verdade. Desconfiava. Concluía. Confabulava.
Tinha talendo para fazer-se de poor-poor-boy. Fuckin' silly!
Tolo.
Mas preferia dizer-se "infame".
Adorava essa palavra.



Escrito por Bento Rodrigues às 15h11
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Nó(s)

acorda em si-não
em prece pragueja


porque outra vez paz
se o caos é que diz mais


e aí é que vai só
com a força de mil sóis


embalando a canção
ninando um refrão


envolvendo-a em braços tais
talvez abraços a mais


e é só que sendo um nó
há de se desfazer em nós



Escrito por Leo às 05h28
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Cachangá

Sou dois conceitos controversos

duas bolas conflitantes

não sou rima não sou verso

Sou dois pedaços de algodão

dois retalhos de filó

construção e retração

sou pedaços e ouro em pó

Não queira me pegar

não tente reduzir

se eu vou me ajustar,

meu barco construir

na rota eu vou voltar

você só vai ouvir:

Chumbo!



Escrito por Zedka às 23h49
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mágico-fálicos.

Eram marinheiros, os dois.
Trajavam os previsíveis uniformes brancos responsáveis pelo detalhamento dos corpos rijos.
Magros e rijos. Bonitos. Palpáveis.
Passíveis de toda culpa dos pecados mitificados a que poderiam sucumbir.
Quando passavam pela portaria ao sair durante as primeiras manhãs do dia, exalavam um cheiro sórdido que desconsertava porteiros, senhoras, crianças...
Nádegas de ambos dançando compassadas enquanto caminhavam rotineiros e os olhares alheios eram meros inquisitores. Desimportantes.
Trouxeram à vizinhança aquele ar de perversão.
Destruíram silenciosamente a paz entediante reinante no prédio de número sessenta e nove da rua que sobe ereta à direita da avenida principal.
Inquietaram homens e mulheres. Faziam emergir invejas em casais aparentemente felizes.
No elevador:
-Bom dia. Dizia cínico enquanto sua mão abocanhava o membro do outro recostado no canto.
Motins se formaram em reuniões. Expulsões foram planejadas.
Nada foi feito, de fato.
A penetração dos dois marinheiros de hábitos hostis naqueles arredores era o ponto de equilíbrio daquela comunidade carente de lascívia.
As senhoras, os porteiros, os senhores,os casais, meninos e meninas; todos diziam bons dias e agradeciam em silêncio pela atmosfera mágico-fálica de então.
Desejavam fosse ela perpétua.

Escrito por Bento Rodrigues às 21h34
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o.meu.trecho.na.cidade.

Em meio a tanta parefernalha redundante,
encontrei meu canto morno.
Reconfortante.
Em meio a tantos corpos móveis transeuntes,
copulei com meu destino improvável,
tão certo quanto vivo e ofegante.
Eu esperava distraído num trecho da cidade.
Ele parou.
Decidiu ficar ao meu lado.
De mãos dadas.
Já faz um dia,
um mês
e todos os anos.
...é sempre uma surpresa olhar pro lado
em qualquer tempo.
Em todo canto.

Escrito por Bento Rodrigues às 06h53
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Desilusão

Não clareou naquele dia,

eram os mesmo trovões

ouvidos há dez anos atrás,

a mesma expressão perdida.

Chegou trazido,

por quem nunca se soube,

disseram ser tanathos,

dissemos ser corvo,

mas nada ouviu, nada falou.

Caiu semi-morto no colchão de farpas,

entre os estalos e os gritos,

entre os tapas.

Fumou meus cigarros,

Quebrou as garrafas,

Embriagou-se de graça.

Não escureceu naquele dia,

Morreu.

Morreu.

Morreu.



Escrito por Zedka às 01h07
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um trecho de mundo.

Estava decidido desde as primeiras horas daquela sexta-feira-de-cinzas que não haveria, nos móveis do apartamento, homens desnudos trajando orixás.
Era mais prudente e cuidadoso, pois um deles guardava ainda esperanças que sua mãe os visitasse em sua já não tão nova casa.
Moravam ali fazia um ano, quatro meses e cinco dias.
As mães de ambos ignoravam aquele trecho de mundo.
Elas os encontravam em horas e locais diferentes e nunca souberam da cor das paredes. A não ser por uma vaga lembrança de quando eles, os filhos, falaram sobre a pintura nova, cômodos e tapetes novos, lugar para pôr os chinelos...
Eles previam isto como futuro.
Não havia novidade ali. Mesmo antes de se juntarem sob o mesmo teto sem estrelas.
...é que os dois rezavam para que estivessem enganados.
O que não era.
Jamais seria.
Existiria sempre dois mundos torpes e vizinhos.
E sabiam que passariam a vida esperando por uma visita que jamais chegaria.

Escrito por Bento Rodrigues às 15h39
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eu.não.me.distraio.

Quando eu pareço tonto, em outro mundo;
esparso ou sonolento;
quando eu pareço vivo e me abraço;
quando eu tento ser rijo e não frágil...
é bem nessa hora que meu ato é falso.
é inverídico
pois quando eu pareço tonto em outro mundo
e pareço vivo e me abraço
é que me dou conta
eu não me distraio.

Escrito por Bento Rodrigues às 16h21
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cápsula.

Eram dois os meninos. E se [bulinavam] como se já soubessem o mundo perdido onde iriam se encontrar.
Tinham doze e já sabiam tanto. Quase pareciam mais velhos. A ausência de muitos pêlos os denunciava.
Um descobria o canto mais morno do corpo do outro. Este retribuiria logo com um toque perto da nuca do primeiro. Um roçar de barba imaginária que um dia teriam.
Sabiam das coisas. De um futuro provável, quase escrito. Quase feito.
Tudo era mesmo tão perfeito naqueles encontros atrás das portas, nos cantos, nos cômodos.
As orações foram abandonadas desde então. Suas graças eram alcançadas com um pênis na mão. Ou na boca.
E tinham os dois apenas um cheiro. Mantinham-se em dois corpos separados, pois o júbilo era o toque, a língua, o par.
Enfrentariam peões, rainhas, tabuleiros.
Mas seguiriam sempre.
Havia essa certeza. Tanto certeza quando líquido espesso. Branco. Único.
Sempre como da primeira vez.

Escrito por Bento Rodrigues às 23h41
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queria.dizer.que.também.sinto.saudade.

Sinto saudade dos dias em que corria pelas ruas seminu depois de ter quebrado algum ornamento da sala, de ter ferido uma de minhas irmãs. E me desculpo por ferir, por sentir saudade. Sinto falta também de quando sonhava reencontrar minha avó materna para que bordasse meu nome no uniforme do colégio. Como todos. Sinto ainda muita falta dos mesmos tempos em que os reparos eram feitos por minha avó paterna em sua máquina com roda-gigante imaginária. Queria voltar àquele tempo em que ela não me deixava pedalar naquela fábrica de sonhos. Sinto saudade de quando ela lembrava das coisas. De quando pedia que vivêssemos com ela aos domingos. Sinto falta das fogueiras, da comida que sempre sobrava em meu prato. Sinto falta do nosso cachorro. Sinto falta da família.
São muitas as minhas saudades. Queria destruir o tempo. Construir a meu modo. Queria voltar ao pé de goiaba. Aos festejos periódicos com meus outros tios. Os primos que não via.
Sinto falta de brincar solitário com brinquedos que só eu via. Inimigos invisíveis.
Sinto falta de tudo.
Sinto muito.


Escrito por Bento Rodrigues às 18h01
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Ode às vontades, às verdadeiras

Quero. Quer. Queira.
Minha vontade caminha sem eira nem beira.
Quis. Quiseste. Quisera.
Minha quimera e minha saudade de mãos dadas.

E eu continuo aqui, com os abraços atados.

Escrito por Leo às 01h57
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